Os vizinhos, Benza Deus, ainda bem que já sabiam.
_ Bom, com licença meus bons amigos; o certame está maravilhoso, mas, como havia me compactuado, hoje é o dia do meu suicídio. Adeus, e quem sabe, até um dia.
_ O louco, Renato. Agora que você tava perdendo a mão. Fique mais um tantinho. Jogamos a última partidinha. A gente ganha mais um pouquinho. Todos bebemos a saideira. E voltamos felizes para a casa.
_ Não. Meu amigo, a vida não é assim.Já havia prometido a mim mesmo que hoje eu morreria. O jogo me remoçou, foi-me uma surpresa solar. Contudo, caros, promessas são promessas e nunca devemos quebrá-las. Cumprir as promessas é o que fará desse país uma grande nação.
Certo!, outra vez - pensaram todos que estavam na roda. Perderiam o mais sensato e o de melhor retórica, além da pior e mais viciada mão de baralho da cidade. Foram derrotados pela inabalável certeza de Renato. Os jogadores continuaram; ele se foi, incólume
.
Percorreu em exatos vinte minutos o percurso do jogo ao apartamento. Elevador, cobertura, porta. Abriu-a. Uma volta e meia na tranca. Sempre. Entrou em seu cavo e modesto palácio, elegante e vazio, em que a poeira quebrava a adorável simetria minimalista retro-vanguarda dos móveis. Uma cama me MDF, uma mesa de bar com suas adoráveis(essas, estampadas com uma esquecida marca de cerveja popular conhecida apenas pelos mais nobres colecionadores), um adorável guarda-roupa feito de madeira de lei, herança da avó – por parte de pai.
Abriu com chaves o guarda-roupa. Duas voltas. Sempre.Dentro dele, na prateleira superior, uma caixa de sapatos. Dentro da caixa um revolver, herança do avô- por parte de mãe , com o símbolo da Guarda- Nacional gravado no cabo de madeira de lei.
Hoje, morreria. Antes, leite fresco. A boca estava seca.
No fim do apartamento de 400 metros quadrados – a cozinha. Lá, tudo o que um solteiro moderno e descolado precisava: um fogaréu de duas bocas e um isopor grande com os mantimentos. Nada de perder tempo limpando!
Tirou do isopor uma caixa de leite. Bebeu até se lambuzar.
Que tal um banho?Um banho! Durante 40 minutos a água bem gelada, para realçar a tez, percorreu o seu corpo. É fato: Nada como um bom banho gelado no inverno dar disposição! Ele saiu do chuveiro ligado, depois de vinte minutos de banho, e sentou-se no trono para um cocô. Fez molinho (aparelho digestivo desintoxicado) e deu descarga. Voltou para o banho.
Que tal um bom chá, pensou, para apetecer o estômago. Quatro bolachinhas água e sal e um chazinho de capim-cidreira. Baixíssima caloria.
Tiro, foi o som que percorreu os vinte andares do edifico.
Os vizinhos ouviram e fingiram não escutar. Sabiam do acontecido.















