
Sempre notei que o espaço dos gráficos, a folha vazia, a tela branca, terror de muitos, é onde melhor me manifesto, pois meu raciocínio nunca é interrompido pela voz alterada de um “colega”, e por incrível que possa, numa esperança das mais irreais, aqui, acredito em uma espécie de civilidade que o tempo da escrita permite se desenvolver. Aqui me sinto rei.
Esse texto é mais um esclarecimento a dois professores – que me ajudaram com a estrutura de uma idéia que talvez nunca avance além desses toques – do que um bate-papo com meu leitor irreal. Aqui, e este é sempre o perigo, a voz nunca gagueja, as idéias sim, mas a voz jamais.
Acalantei a idéia de me escrever no Rumos – Itaú Cultural/ literatura, mas não vou.
Talvez todas as sentenças abaixo sejam apenas desculpas de um covarde com medo de perder a visão de sua janela. Não sei, mas, quem sabe?
Primeiro, e o mais obvio; descobri que ainda não tenho o conhecimento para preparar e desenvolver um texto acadêmico com todas as suas metodologias, cronogramas, pesquisas etc; e não tenho estofo para tratar, de maneira crítica e decente, qualquer movimento literário.
Segundo, não concordo com a lei de incentivo fiscal praticada hoje, em que o dinheiro vai parar nas mãos das empresas e não dos artistas, mas esse assunto fica para depois.
Terceiro, apesar de muito me agradar o tema, nunca quis descrevê-lo.
Quando se é ingênuo (a ingenuidade em cada novo assunto a se aprender, mesmo que dure um dia e seja muito tola em certos momentos, é um direito) a “grandeza” exterior do mundo, vista pela refração produzida interior do mundo, nos impele a uma correria boba por ser o "GRANDE QUALQUER COISA", ou o famoso de 30 anos.. Eu não queria o prazer na composição de um bom texto, e sim os louros do programa Metrópolis da TV Cultura e ,quem sabe, uma entrevista para o Entrelinhas e uma fugidinha da vida em Taubaté.
Com a leitura, e a conversa, dos bons amigos, neste ano, entendi que o que importa é mudar os trilhos, a poltrona, mas nunca a janela que serve de guia, o que em suma quer dizer, tentar melhorar sempre, mas não cair no canto da sereia do ser "O ALGUEM" no mundo de hoje.
Contudo, esse ingênuo zumbi tem que ser enfrentado todos os dias.
E quarto e mais subjetivo, o mote de meu trabalho, ou melhor, o tema proposto pela organização, só trará trabalhos de “pé-quebrado”, pois discutir a literatura produzida nas últimas duas décadas, e subseqüentemente, a literatura da minha geração, o povo com menos de 30 anos, será apenas gastar celulose à toa.
Não vou entrar no “diz-que-me-diz” do valor das obras produzidas, ou na excelência dos pesquisadores, já que disso pouco sei.
Eu gosto da minha geração, e sei que muita coisa mudou a partir da década de 80.
Fomos a primeira fornada a conviver com tecnologia ao alcance da prestação em carnê, a queda real dos símbolos esquerda-direita (acho), o consumo exagerado de produtos da indústria cultural, entre outras, que influenciaram em muito a nossa formação cultural.
É na idéia desse parágrafo que se encontra o primeiro problema.
Não conseguimos encontrar um equilíbrio quando falamos de nós – em quase todo o tipo de assunto. Ou exageramos na egolatria pura da grande “geração do momento”, ou nos desacreditamos totalmente frente os nossos ascendentes.
Dúvida?! Basta uma passar nos blogs literários. Acredito que quando alguém consegue equilíbrio, sem cair na besteira de ser “imparcial”, ao falar de alguém tão próximo, isso custou uma vigilância na cata e costura das palavras, que deixou esse autor com dores de cabeça. Basta, agora, somar a velocidade e a quantidade com que a literatura é produzida para compreender que não dá para um texto reflexivo ter o mínimo cuidado e lógica pedida.
Os críticos e autores conseguem pensar no texto rápido do jornal, da revista, do blog.
A reflexão feita por um livro precisa de tempo, certa hierarquia nos autores e sua produção literária, que só é possível com uma pequena estagnação teórica na linha do tempo. Coisa impossível de ser feita no aqui e agora com autores vivos e jovens, alguns ainda com uma pouca e não estabilizada produção.
E aqui entra o segundo dado importante:
O que é realmente importante hoje, e principalmente para o amanhã, no que diz respeito à literatura, que mereça a análise de um livro?! Quem precisa saber disso é a geração de pensadores (!?) de 2050 – com uma pequena ajuda do tempo. Ela é que decidirá o que foi importante, o que realmente merece uma análise em livro.
Enquanto isso, os que pensam e fazem literatura podem agraciar com resenhas, notinhas, pequenos ensaios em periódicos, os leitores que gostam de uma conversa mais “formal” sobre o fazer literário.
Os autores podem ter reconhecimento da rua, nas palestras e festas, mas, por favor, sejam objetivos. Nelson Rodrigues, o homenageado da Flip, sempre foi reconhecido e rechaçado quando vivo, mas seu real valor na literatura foi provado pelo tempo e pelas novas gerações.
Análise da recente produção literária com dinheiro público será que não é um exagero de vaidades?