nota mental: ou de como um nome pode ser pretensioso

27 de agosto de 2007

bate-papo

Futuro. Taubaté. Cidade do tele-marketing.



Início de nova sessão.

Hora do almoço, 10 minutos de recesso, grande refeitório da Winkglobal, poderosa empresa de tele-markentig. Alvo, grande, asséptico no chão, asséptico nas paredes, com práticas mesas coletivas, e eficiente iluminação de lâmpadas fluorescentes. Silencioso.

A alimentação dos colaboradores é fornecida por nossa excelente terceirizada, a Walckman, fabricante dos mais saborosos e nutritivos alimentos, com o máximo de qualidade e higiene, garantindo a satisfação do cliente. Todos os alimentos são embalados a vácuo.

Silêncio

Dois colaboradores dirigem-se às máquinas de alimentação e com seus cartões magnéticos retiram suas sacolas de almoço. Sentam-se à frente um do outro. Atentos. Papeiam.

- Oi.

- Oi.

Silêncio

- Há quanto tempo!

-É.

- Pois é.

Silêncio

- Quente hoje, não?

- É.

- Pois é.

Silêncio

- E a família?

- Bem. E a sua?

- Bém.

-É.

-Pois é.

- É.

Silêncio

- Que horas são?

Há um grande relógio digital no gigantesco refeitório para que todos os colaboradores observem.

- Meio-dia e meia.

-É.

- Pois é.

Silêncio

- Será que chove?

- Não sei. O site de notícias diz que sim, frente fria do sul.

- Hum!

- Pois é.

-É.

-É.

Silêncio

– A nossa mãe mandou lembrança.

- Não me diga.

- Digo!

- Mande as minhas lembranças.

- Mando. Estarei enviando para ela um e-mail.

- Preciso cadastrá-la no meu novo e-mail.

-É.

- Pois é.

Silêncio

O relógio avisa a todos. Faltam cinco minutos para o fim.

– Cinco minutos para comer!

- Já?

- Já!

- Me demorei no banheiro.

- Também.

- É

- Pois é.

_ É.

Os colaboradores abrem seus sacos a vácuo e comem. Demoram 2:18 minutos para esvaziarem seus sacos.

Silêncio

- Trabalhando ainda no setor de vendas produtos.

- Estou trabalhando. E Você.

- estou trabalhando no setor de vendas de serviço.

- Hum.

-Pois é

- É.

Um terceiro colaborador, seu uniforme tem um selo dourado no peito, senta-se em uma cadeira desocupada ao lado dos outros dois colaboradores. Eles se sentem intimidado com a presença desse novo colaborador.

- Oi tudo bom com vocês? Sabe, ontem eu discuti com a minha mulher. Não que isso tenha importância. Não. Discutir a gente discute todo dia. Há dois dias, discuti com a minha filha. Vocês acreditam que a minha menininha queria desafiar a minha autoridade. Só porque não a deixei fazer o que quis. Não que eu não me divertisse quando era mais jovem. Mas ela é muito nova. Não sabe o que é bom ou ruim para ela. Ou para os outros. Minha pressão nesses dias está indo lá pra cima. O meu médico já disse para eu tomar cuidado com a minha alimentação. Hoje, o meu almoço não contém alimentos providos de animais ou com gordura animal

Abre o saco a vácuo e come enquanto fala.

- Vocês conhecem o médico daqui? É o meu médico. Ele tem uma secretária que é uma maravilha. Vocês não se importam de eu falar disso? Vocês gostam de obscenidades. Putaria! Eu adoro. Principalmente na Internet. Ora, afinal quem nunca deu uma escapadinha? Eu por exemplo já pulei a cerca algumas vezes. Ninguém desconfia. Bem já devorei meu almoço, desculpa não ter oferecido. Estava com uma fome. Desde manhã não me alimento. Bom, já vou indo. É preciso voltar ao trabalho. Até outro dia.

O colaborador sai. Os outros dois afrouxam sua tensão

- Até.

- Tchau.

- Conhece?

- Sim, ele é um dos responsáveis pela checagem de todos os e-mails corporativos dos colaboradores.

- Bom serviço.

-É.

- Pois é.

-É.

Silêncio

- Quente hoje, não?

-É.

-Pois é.


Silêncio

Os dois olham o relógio digital. Faltam 60 segundos para o fim do almoço.

- Bem eu vou embora.

- Também, já esta na minha hora.

- Foi bom conversar com você.

- Eu digo o mesmo.

Silêncio

- Então, heim?

- Não sei.

- Nem eu.

-É.

- Pois é.

-É.

- Bom então tchau.

- Tchau.

Os dois colaboradores vão embora. Fim da sessão 233045294490918. Documento armazenado no programa Funnes de registro de alimentação dos colaboradores.




Início de nova sessão...

22 de agosto de 2007

Ulisséia



Taubaté. Ligo a TV. Boxe internacional. Intervalo entre os assaltos.

Ulisses, o Orientador, desafiara Cronos, a Marreta do Mundo, pelo título de campeão dos pesos pesados.

Vejo milhares de pessoas torcendo contra Ulisses no Carnegie Hal. Nosso campeão é a zebra. Mas, revendo os melhores momentos, quando um soco entrava desafiante na defesa de Cronos, o titã (é descomunalmente grande), balançava bonito.

Rocky é bom, mas é ficção. Ulisses sim! é um verdadeiro lutador.

O espetáculo é maravilhoso. Um balé viril. Pega-pega, entre punhos e rostos, na câmera lenta dos nossos olhos.

A luta de um homem, e a violência que dela nasce, bem tratadas pela estética do luxo, me fazem sorrir, não vou negar.

Em uma de suas entrevistas Ulisses disse:

_ Tento viver entre duas morais. No punho direito trago Sêneca: “A verdadeira alegria é coisa séria”... Meu punho esquerdo é guiado por uma velha moral dum filme B: “ Não leve a vida tão a sério. Você nunca vai sair vivo dela.”

Soa o gongo. 30º assalto. As musas do boxe são lindas.

Sentindo a vida no sangue que escorre para a boca, vi sorrir os olhos de Ulisses. Levanta-se. Os punhos se tocam, rápidos e com pressão. Estrala o pescoço. Será uma grande luta para todos.

Ah! Que inveja. Se eu tivesse um pouco mais de coragem, juro que abandonaria da pena, para sentir um pouco de sangue na boca. Coitado, sou apenas um digitador.

Os socos começam. A você minhas bênçãos. Não precisa vencer, mas se mantenha em pé e oxalá Ulisses.


20 de agosto de 2007

ABC do homem-ônibus

14 de agosto de 2007

nunca envelhecer



cracatoa simplesmente sumiu